Pesquisar este blog

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Encontro da Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia

Começa hoje o IX encontro da ABFHiB (www.abfhib.org), com um belo programa de conferências, sessões paralelas e apresentações.

Minha apresentação será daqui a pouco, e, como já adiantei na postagem de Abril passado, quando estava na Biblioteca Municipal de Verona, será sobre um texto que lá achei, em que Giovanni Serafino Volta ataca Lazzaro Spallanzani, naquilo que chamei de sua última querela sobre o sexualismo dos vegertais.

Fiquei surpreso e ver como o sexo dos vegetais foi uma metáfora da libertinagem no século XVIII, e a poesia botânica para moças era considerada obscena. Andy Warhol certa vez disse que se quisesse fazer um filme pornô, filmaria a polinização de uma flor. Mal sabia ele que era exatamente assim que a polinização era vista naqueles tempos das luzes. Não `a toa, Erasmus Darwin, considerado libertino, escreveu seu poema botânico para moças, de maneira anônima, esperando fazer algum dinheiro com ele, o que de fato fez (foram várias edições, o que o surpreendeu bastante).

A apresentação está disponível em:

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

III Encontro de Ciências Biológicas da UEL

O programa do evento está muito bom, e pudemos assistir a palestra de abertura, que foi muito interessante. Amanhã, sexta e sábado o evento traz diversas palestras, mini cursos e exposições de alto nível. O programa completo está disponível no site do evento (http://www.ecbuel.com).

Daqui a pouco começa a mesa redonda "Educação em Ciências Biológicas na Atualidade", onde José Mariano Amabis e eu estaremos debatendo, a partir de uma apresentação inicial, os temas do ensino de Genética e Evolução.

A minha apresentação já está disponível para download: http://www.sendspace.com/file/sebn38

10.000 acessos!

O mês de julho fecha com um recorde: 10.000 acessos!
Trata-se de um grande estímulo para seguir adiante e atualizar com maior regularidade o Blog.
Muito obrigado aos leitores!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Edward Wilson e o fim da Sociobiologia

Defendo com unhas e dentes o princípio de que uma das marcas mais enobrecedoras de um pensador se revela quando ele muda de ideia e admite isso publicamente. Admiro pessoas assim. A caminho do aeroporto para participar do congresso de João Pessoa (a última postagem), fui contatado por um repórter de Folha de São Paulo, Reinaldo José Lopes - um jovem brilhante - para responder algumas perguntas sobre a mudança de posição de Edward Wilson, um de seus herois intelectuais.

A conversa se estendeu por e-mails durante o congresso, e como a matéria aparentemente "caiu", como se diz no jargão jornalístico, achei por bem reproduzir aqui. Seguem detalhes saborosos com os e-mails trocados, me desculpando pela falta de revisão gramatical e ortográfica:

Caro professor Bizzo,
>>>
>>>
>>>
>>> Tudo bem por aí? Espero que sim. Sou editor de Ciência da Folha de S.Paulo e
>>> gostaria muito de entrevistá-lo.
>>>
>>>
>>>
>>> Estou fazendo uma reportagem grande na Folha sobre a virada pró-seleção de
>>> grupo no pensamento do Edward O. Wilson - um livro recém-lançado dele vai
>>> contra a própria ideia de seleção de parentesco, dizendo que há poucas
>>> evidências empíricas sólidas a respeito dela.
>>>
>>>
>>>
>>> Gostaria muito de conversar com o senhor a respeito entre amanhã e quarta.
>>> Posso ligar para o senhor? Em quais telefones o encontro?
>>>
>>>
>>>
>>> Abraço e obrigado,
>>>
>>> -------------------
>>> Reinaldo José Lopes
>>> Editor de Ciência e Saúde/Science and Health editor
>>> Folha de S.Paulo

Caro Reinaldo,
>>
>> Como vai?
>> Estou de saída para o simpósio de J.Pessoa. Vc. vai?
>> (http://www.iseb2012.com/#!program)
>> Vc. vai encontrar alguns dos maiores geneticistas do planeta lá, que
>> bem poderiam falar sobre o assunto muito melhor do que eu.
>>
>> De minha parte, já te adianto que não me surpreende. Eu era estudante
>> de pós-graduação e já dizia que uma conjectura (que, na verdade era de
>> W.D.Hamilton, em seus dois artigos no Journal of Theoretical Biology,
>> de 1964), não podia ser apresentada como uma verdade absoluta. Cursei
>> a disciplina "Sociobiologia" durante o mestrado, e lembro-me que no
>> trabalho final, batizei a “nova ciência” de "compadrio genético" e
>> levantei outra conjectura, igualmente válida, dizendo que, se as de
>> Wilson estivessem corretas, o editor do livro “Sociobiology” deveria ser seu
>> aparentado. Quase fui reprovado! Para retribuir a gentileza, traduzi
>> dois artigos do "Science for the People Group" (do Garland Allen,
>> S.J.Gould e Cia.) e os publiquei pelo Centro Acadêmico da Biologia com
>> lindes de crueldade: uma das palavras-chave da ficha catalográfica era
>> "nazibiologia"! (achei
há pouco uma cópia sobrevivente e me diverti

>> muito).
>>
>> Pois é, como dizem, o que se faz aqui se paga aqui...
>>
>> Se vc. não for ao congresso, podemos combinar por e-mail (não sei
>> ainda o nome do hotel em qeu vou ficar, mas certamente tem internet).
>>
>> Abraço,
>>
>> Nelio

> Oi professor,
>
> que pena, não estava sabendo do congresso. Seria uma oportunidade e tanto!
>
> Vou mandar algumas perguntas por email em breve então. De pronto, será que posso citar essa história pessoal sua na reportagem? É muito interessante e iconoclasta, me parece.
>
> Abraço e nos falamos,
> -------------------
> Reinaldo José Lopes
> Editor de Ciência e Saúde/Science and Health editor
> Folha de S.Paulo

Caro Reinaldo,

Sim, pode usar essa história pessoal. Ela ocorreu em 1981 e conversei
pessoalmente com o Garland Allen recentemente sobre ela há pouco tempo.

Vamos`as questões:

1)Quanto o senhor acha que tem de bagagem ideológica nas guinadas do Wilson? Tinha mesmo um elemento de conservadorismo político na defesa dele da seleção de parentesco? E tem isso também nessa volte-face pró-seleção de grupo?

Acho que a carga ideológica da seleção de parentesco era evidentemente
muito grande, pois era uma justificativa muito forte para o
determinismo genético e uma série de práticas sociais moralmente
inaceitáveis, como o racismo e a xenofobia. O "Science for the People
Group" estava denunciando isso, mas de qualquer forma, do ponto de
vista brasileiro, estávamos em plena ditadura. Chamar a sociobiologia
de naziobiologia foi certamente um exagero, mas não se pode perder de
vista que, como estudantes atuando em um Centro Acadêmico da época,
estávamos apenas razoavelmente exigindo o impossível.


2)Deixando de lado por um instante o lado político-ideológico, o senhor acha que hoje ele está em terreno teórico e empírico mais seguro ao defender a seleção de grupo? Ou, na prática, nada mudou?

A Filosofia da Ciência nos diz que é impossível que o cientista deixe
de ser influenciado pelas suas convicções mais íntimas quando
interpreta a natureza. Mas isso não invalida os produtos da ciência;
tomemos um exemplo clássico: o russo I. Mechnikov (1845-1916), que
inicialmente rejeitou o darwinismo pela sua similaridade com os
valores da sociedade capitalista e depois, dentro de um contexto
inclusive pessoal dramático, mudou completamente de ideia. Ele acabou
por desenvolver a teoria fagocítica, também muito útil ao ethos
competitivo e bélico, mas essencial para entender a imunidade, pelo
que ganhou inclusive o prêmio Nobel. Já argumentei que talvez um Nobel
tenha sido pouco, pois ele nos ensinou que a ciência não se invalida
pela “marca de nascença” social. O problema é seu uso para explicar a
sociedade. Os glóbulos brancos continuam a combater bactérias; o uso
ideológico da teoria fagocítica adviria da justificação das guerras ou
do orçamento militar dos países como sendo algo “natural”.

A seleção de grupo tem uma base
empírica muito ampla e reconhecida e nos ajuda a entender situações
nas quais a seleção darwiniana individual não explica o padrão
observado em grupos de indivíduos que colaboram em vez de competir.Darwin dizia que havia duas coisas que lhe tiravam o sono: a formiga e o pavão. Aliás este é o título de um belo livro da Helena Cronin.

3)Ele argumenta que há um paralelo importante entre a eussocialidade dos insetos sociais e a "eussocialidade" humana. O que o sr. acha? É totalmente estapafúrdio?

A eussociabilidade dos insetos surgiu várias vezes de maneira
independente e a sociabilidade dos primatas não tem, rigorosamente
falando, nenhuma característica homóloga com qualquer de suas versões.
Dizer que podemos compreender a sociedade humana olhando para uma
colméia de abelhas me parece outra típica manifestação daquele cacoete
ideológico que Wilson parece não ter perdido. Talvez seja genético...
Talvez ele seja descendente de uma família que possui um gene que faz
as pessoas pensarem que tudo é genético! [não publique isso, é infame demais!]


Se quiser conversar, podemos combinar pelo skp hj depois
das 18h (o congresso está ótimo!)

Abraço,

Nelio

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Darwin: postillion of the Andes

O I International Symposium on Evolutionary Biology (www.iseb2012.com) reuniu pesquisadores de várias partes do mundo e constituiu um evento memorável, além de dezenas de apresentações de posteres, de altíssima qualidade. Finalmente achei alguém que me explicou porque não existem mamíferos verdes (fica para outra postagem...).




Eu prometi deixar indicações de fontes bibliográficas disponíveis, reproduzindo as pranchas finais que apresentei. Aproveito para acrescentar o vídeo que não tive tempo de apresentar. Eu tinha incluído um pequeno trecho deste vídeo que está disponível no YOU TBE, bastando buscar "DARWIN NOS ANDES":

A parte inicial do vídeo:


A parte final do vídeo:

O vídeo está baseado no livro editado pela Ed. Odysseus (Darwin no telhado das Américas). Na segunda edição (de 2009) tive de incluir um capítulo adicional, descrevendo os detalhes do desfecho da história de Charles e Fanny. Se o irmão dela tivesse embarcado quase certamente ocorreria o que tinha sido garantido por FitzRoy: eles poderiam desembarcar depois de conhecer o trópico, e provavelmente voltariam de Montevidéo, em meados de 1832. Nada de Galápagos e muito menos do Bosque fóssil! Já pensaram?

No livro que está sendo lançado agora (Pensamento científico. Ed. Melhoramentos) há um capítulo sobre Darwin que focaliza mais detidamente a construção dos principais conceitos da teoria, em especial sua ruptura com o finalismo aristotélico e com a teologia natural.

Aqui vão as indicações de fontes e bibliografia:




quinta-feira, 31 de maio de 2012

Apresentação na Universidade Federal de Sergipe

Hoje a noite proferirei palestra na II Jornada de Debates sobre Ensino de Ciências na Universidade Federal de Sergipe, no campus de Itabaiana. Estou feliz por rever amigos, encontrar novamente um clima muito cordial e hospitaleiro, e conhecer pessoas com as quais eu tinha interagido apenas a distância, durante um curso realizado há quatro anos.

A palestra tem o título "O livro didático e o PNLD: apontamentos sobre o desenvolvimento profissional dos professores". Ela está baseada no capítulo I do livro de minha autoria chamado "O Ensino de Ciências e os Erros Conceituais: reconhecer e evitar", da Editora do Brasil (168p, ISBN 978-85-10-05205-4), ainda inédito, mas cujo lançamento deve ocorrer ainda neste ano.

A apresentação permanecerá disponível para download por alguns dias no link:

http://www.sendspace.com/file/bp4a2t

Boa sorte!

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A Evolução do Olho: desafio para a evolução?

Segue entrevista a ser publicada no portal da UFSCar, na aba "CLICK CIÊNCIA":



O que é o olho, para quê ele serve e como ele funciona?
Nelio Bizzo: Se considerarmos todos os animais conhecidos, falamos de mais de um milhão de espécies, veremos que cerca de 95% deles têm olhos. Há diferentes tipos de olhos, mas todos eles podem ser definidos como órgãos especializados dotados de estruturas sensíveis à luz. Nesta definição de olho, podemos dizer que ele foi “inventado” mais de quarenta vezes no passado evolutivo, em animais que pertencem a seis diferentes filos animais. Mas é bom que se lembre que um pigmento sensível à luz do olho humano, a rodopsina, existe desde algas e fungos. Os zoósporos de fungos, bem como algas verdes, podem perceber a direção da luz graças à presença de rodopsina, o que indica que os verdadeiros “inventores” dos olhos, ou pelo menos da sua infraestrutura, possivelmente foram organismos unicelulares.

Como o olho evoluiu nos diferentes grupos animais?
Nelio Bizzo: Como disse, não há um padrão único de olho.Assim, podemos falar da evolução “dos olhos”, que ocorreu paralelamente emdiversos grupos animais. Quando ocorre a chamada “explosão do Cambriano”, há cerca de 540 milhões de anos, já há estruturas que podem ser identificadas como olhos. Portanto, do ponto de vista do registro fóssil, a ocorrência de olhos é algo abrupta e ocorre paralelamente em diferentes filos. Em cubomedusas pode-se encontrar a estrutura mais simples de estruturas especializadas sensíveis à luz.O padrão mais complexo de olhos pode ser encontrado em certos moluscos, como polvos e lulas, e mamíferos. O padrão de ambos é incrivelmente parecido, mas evoluiu de forma independente, pelo menos nos últimos 500 milhões de anos. Nos mamíferos a estrutura do olho é bem adaptada para a visão noturna, se bem queno caso humano tenha sido perdida uma estrutura que reflete internamente a luz e que está presente até mesmo nos olhos de animais domésticos, como os gatos.Experimente tirar uma foto com flash de um gato com seu dono e perceba como o reflexo dos olhos de ambos é diferente!

O fato de humanos, algas e fungos compartilharem a proteína rodopsina é considerado uma evidência para a evolução das espécies?

Na verdade, quando falamos de rodopsina estamos nos referindo a uma
superfamília de proteínas, ou seja, um grupo com diversas variações em
sua composição. Ainda não há um consenso que todas as variantes sejam
homólogas, ou seja, que sejam modificações de uma forma ancestral, e não
seria surpreendente se tivesse ocorrido desenvolvimento independente em
alguns casos, dada a ampla ocorrência dessas proteínas. Mas, de qualquer
forma, se admite que organismos muito diferentes compartilham rodopsinas
aparentadas, o que é sem dúvida uma prova da evolução biológica.

O senhor comentou sobre a semelhança estrutural entre os olhos de mamíferos e de certos moluscos, mas também sobre a evolução independente dessa estrutura nesses grupos. Existe alguma explicação para tamanha semelhança? (já que esses animais vivem em ambientes
bastante diferentes).

A explicação clássica é a da convergência evolutiva. Quando uma estrutura
ou um órgão confere grande vantagem adaptativa, é de se esperar que
diferentes grupos a tenham desenvolvido, mesmo que não sejam aparentados.
A convergência evolutiva é explicada pela constância de condições ambientais,
como luz, pressão, presença de oxigênio, etc.

O olho é uma estrutura bastante complexa. Sua complexidade estrutural é tamanha que muitos críticos à Seleção Natural usam o olho como exemplo do que chamam de “complexidade irredutível”. Segundo esse argumento, o olho é um sistema que não funcionaria sem qualquer um de seus inúmeros componentes, o que impede que ele tenha evoluído de formas mais primitivas pelo mecanismo daSeleção Natural. Esse argumento faz algum sentido do ponto de vista da lógica da evolução? Por quê?

Nelio Bizzo: Esse argumento foi apresentado à época de Darwin, por críticos imersos na teologia natural anglicana. Darwin, ele mesmo, escreveu que seria difícil imaginar as etapas sucessivas da evolução do olho, com uma estrutura que focaliza imagens e corrige a aberração cromática. Invariavelmente seus críticos evitaram citar a frase seguinte, no mesmo parágrafo do Origem das Espécies, na qual Darwin fala que se pequenas variações favorecerem a sobrevivência do animal, a seleção natural não terá dificuldade de ir gradativamente aperfeiçoando uma estrutura sensível à luz a cada geração. Hoje em dia dispomos de uma quantidade enorme de evidências da evolução dos vários padrões dos olhos, inclusive do ponto de vista molecular. Um organismo com a superfície do corpo revestida com células sensíveis à luz pode se orientar em um ambiente iluminado pelo Sol, como ocorre com diversas medusas e hidras. Se essas células estiverem agrupadas, formando um órgão especializado, poderão responder a intensidades luminosas menores, dando maior eficiência à busca por luz. Não por acaso, o gene com a receita de pigmento cromático das medusas, que não possuem olhos propriamente ditos, pode ser encontrado nos animais com olhos! Formar imagens seria um passo adicional importante. A seleção natural favoreceu os organismos que conseguem iniciar suas refeições de algas ou pequenos animais mais cedo e se alimentar até mais tarde. E vai aquinhoar generosamente os animais que puderem perceber uma imagem de um objeto próximo, distinguindo um predador de uma presa. Com mais alimento, e sobrevivendo por mais tempo, os animais com olhos um pouco melhores dos demais terão mais descendentes a cada geração. Dois cientistas suecos (Dan-Eric Nilsson e Susanne Pelger) fizeram um experimento engenhoso: supuseram que, a partir de algo como um animal hipotético com um par de “proto olhos”, órgãos com uma retina plana, tivesse, a cada geração, descendentes com apenas 1% de variação nessa estrutura. A conclusão da simulação do programa de computador foi a de que em menos de 400.000 gerações pode-seformar um olho globoide, com íris e lente. Ou seja, a evolução de um olho pode ocorrer até mesmo dentro de uma pequena fração do Cambriano. No entanto, é provável que tenha ocorrido antes. Àquela época, os animais com os melhores olhos eram os trilobitas, com olhos compostos, com pequenas lentes focalizadoras em cada unidade fotorreceptora. São conhecidos onze tipos de lentes de unidades fotorreceptoras, e apenas três estão presentes em vertebrados.

Os animais adaptados para a vida emcavernas, denominados “troglóbios”, não necessitam da visão já que a luz nãochega aos ambientes cavernícolas. Como podem ser explicados a regressão do olho nesses animais emtermos evolutivos?
Nelio Bizzo: Não há dificuldade em explicar as consequências da ausência de pressão seletiva. Sem luz, as estruturas fotorreceptoras ficam fora da mira da seleção natural; os animais com olhos ótimos, olhos medíocres e os sem olhos passam a ter as mesmas chances de deixar descendentes. O resultado é que em poucas gerações haverá perda da funcionalidade de estruturas fotorreceptoras. É interessante que animais sem olhos, como o nemátodo C. elegans, possuem um mesmo gene relacionado com a formação do olho, mas com uma função diferente, provavelmente ligada à orientação do desenvolvimento embrionário sinalizando a região anterior do corpo.

Se animais com olhos bons e animais sem olhos, possuem a mesma chance de se reproduzir, como explicar a perda de funcionalidade das
estruturas fotorreceptoras? Isso pode estar relacionado com o gasto de energia para se formar e se manter um olho? Existem explicações
evolutivas e moleculares para esse fato?

Uma espécie de peixe mexicano (Astyanax mexicanus) tem se tornado o melhor
modelo para estudo das adaptações às condições de cavernas escuras (o
chamado troglomorfismo). Isso porque ele tem perda total ou parcial dos olhos
e se reproduz em aquários e forma híbridos férteis com espécies muito
próximas, que vivem na luz e têm olhos. São conhecidas populações de pelo
menos trinta cavernas diferentes, geograficamente isoladas e biologicamente
muito próximas. A perda dos olhos ocorreu de maneira independente nas
diferentes populações, e o cruzamento entre dois indivíduos cegos, de duas
cavernas diferentes tem como resultado indivíduos com olhos. São
basicamente duas as possibilidades de explicação. Uma delas explica pelo
acaso (tecnicamente denominado "oscilação genética", ou "genetic drift" em
inglês), pelo fato de haver relaxamento de seleção natural. Embora essa seja
minha hipótese preferida, trabalhos recentes com essa espécie, que
envolveram estudo dos detalhes moleculares do desenvolvimento embrionário
dos olhos, têm favorecido a outra hipótese, que aponta para a seleção natural
de estruturas que favorecem a maior captura de alimento, mas que têm efeitos
deletérios sobre os olhos, uma influência que os geneticistas
chamam "pleiotropia". Os neurônios do nervo óptico estão presentes nos
embriões das espécies cegas, mas eles migram para o bulbo olfativo ao longo
do desenvolvimento embrionário, o que parece favorecer a capacidade de
localizar alimento no escuro. Curiosamente, o mesmo gene envolvido no
desenvolvimento do olfato favorece o aumento do tamanho da mandíbula.
Indivíduos com maior olfato (e mandíbula), e consequente menor visão, são
claramente favorecidos pois podem encontrar e capturar mais alimento em seu
habitat sem luz. Assim a intensificação da seleção natural, e não seu
relaxamento, estaria na base da explicação do desaparecimento dos olhos nessa espécie.


A visão é um fenômeno que depende não só de uma estrutura que capte a luz (olho), mas também de uma estrutura capaz de processar umaimagem a partir dessa luz captada (cérebro). Pode-se afirmar que a complexidade do olho e a complexidade do cérebro estão relacionados?
Nelio Bizzo: Nas últimas edições do “Origem das Espécies” Darwin conjecturou sobre isso, mostrando que se um grupo de células sensíveis à luz não estivesse conectado a uma estrutura nervosa, o organismo poderia apenas distinguir o claro do escuro, mas se estivesse, informações mais sofisticadas poderiam ser geradas. No entanto, apenas uma parte de nosso cérebro está relacionada ao processamento de imagens; temos regiões sensíveis apenas à alternância entre dia e noite, com base em nossa sensibilidade para o claro e oescuro, e a produção de melatonina está justamente ligada à essa percepção mais difusa. Tome 6 mg de melatonina e logo você vai sentir sono, como se estivesse há horas no escuro. Assim, a maquinaria nervosa evoluiu paralelamente à instrumentação ótica em todos os grupos animais, mas não podemos esquecer que um organismo precisa de um sistema nervoso para responder a diferentes tipos de estímulos, não apenas os luminosos.

Leituras Sugeridas

Rétaux, S, Karen Pottin and Alessandro Alunni. Shh and forebrain evolution in
the blind cavefish Astyanax mexicanus. Biology of the Cell 100: 139-147 (2008).
[disponível online em: http://www.biolcell.org/boc/100/0139/boc1000139.htm]

Jeffery WR. Regressive evolution in Astyantax cavefish. Annu Rev
Genet. 43:25–47 (2009)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Lançamento de Livro


No dia 19 de maio, no Instituto Cervantes, ocorre o lançamento da coleção "Como eu Ensino" com um ciclo de palestras, que começa às 9:30h. A coleção foi idealizada e organizada por Maria José Nóbrega e Ricardo Prado, e tem cinco volumes na primeira leva, cujas palestras correspondentes ocorrem no mesmo dia e local. Vejam os temas e horários:

A História das Cidades Brasileiras e o Ensino de História (9:30h), de Antonia Terra;

Texto e Gramática - uma visão integrada e funcional para leitura e a escrita (10:15h), de Antônio J. Abreu;

Leitura de Imagens (11:00h), de Lucia Santaella;

Sistema de escrita Alfabética (13h), de Artur Gomes de Morais

Pensamento Científico - a natureza da ciência no ensino fundamental (14h), Nélio Bizzo
Este livro é muito especial para mim, pois consegui realizar um antigo projeto, de trabalhar os fundamentos históricos e filosóficos do conhecimento científico em um único texto. Com a revisão de colegas que respeito muito, creio que o resultado ficou bem original, discutindo Aristóteles, Galileu e Darwin, três de meus maiores ídolos intelectuais, mostrando em certa medida os avanços e dificuldades de cada tempo.


O evento é gratuito, mas como o espaço é limitado, a editora pede para fazer inscrição pelo telefone 
(11) 3874-0902 ou  (11) 3874-0884, ou  ainda pelo e-mail: divulga@melhoramentos.com.br
   






domingo, 29 de abril de 2012

Jovens Brasileiros Conciliam Bem Ciência e Religião

A matéria de hoje do jornal Estado de São Paulo, com chamada de primeira página, traz uma matéria com os primeiros resultados da pesquisa apresentada nos encontros de Veneza e Florença há poucos dias. Nela são apresentados os resultados brasileiros de uma parte do Projeto ROSE (http://www.uv.uio.no/ils/english/research/projects/rose/), que se refere a o que os jovens que iniciam o ensino médio pensam sobre evolução biológica. A amostragem tem representatividade nacional e  regional, utilizando a amostra do PISA, e mereceu destaque no encerramento do congresso de Florença (www.pcst2012.org). A matéria completa pode ser encontrada em: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,jovens-brasileiros-conciliam-bem-ciencia-e-religiao,866620,0.htm?reload=yhttp://www.estadao.com.br/noticias/vidae,jovens-brasileiros-conciliam-bem-ciencia-e-religiao,866620,0.htm?reload=y

O trabalho está sendo desenvolvido como projetos de doutorado por Ana Maria Santos Gouw, que explora os resultados gerais das opiniões dos estudantes sobre ciência e tecnologia, e Helenadja Mota Rios Pereira, que explora os resultados da parte brasileira do questionário, que se refere a atitudes em relação à evolução e religião. As atitudes em relação ao meio ambiente estão sendo estudadas por Mariana Antonieta Prado, como trabalho de iniciação científica, e seus resultados parciais foram apresentados em novembro passado no Simpósio de Iniciação Científica da USP.

O grupo de pesquisa tinha desenvolvido dois trabalhos exploratórios, utilizando uma amostra mais restrita, com 294 estudantes de Tangará da Serra – MT e 358 estudantes de São Caetano do Sul – SP. Esse estudo prelininar resultou na tese de doutorado do professor da Universidade federal de Santa Maria (UFSM) Luiz Caldeira Brandt de Tolentino Neto, explorando os interesses gerais dos estudantes por ciência e tecnologia (http://www.uv.uio.no/ils/english/research/projects/rose/partners/brazil/bra-caldeira-tolentino-neto.pdf) e na dissertação de mestrado da docente da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Graciela Silva Oliveira, publicada recentemente (http://revistas.if.usp.br/rbpec/article/view/226), que abordou a temática evolutiva. Como parte desse esforço de pesquisa, temos ainda a tese de doutorado do professor da Universidade Federal de Sergipe Acácio Alexandre Pagan (http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/2010/artigos_teses/2010/Biologia/teses/ser_humano.pdf) que explorou especificamente a temática da evolução humana.

O tema da redação do último vestibular da UNICAMP foi justamente sobre os resultados da  pesquisa exploratória do projeto ROSE em S. Caetano do Sul e Tangará da Serra (http://vestibular.brasilescola.com/correcoes-provas/comentario-redacao-01-unicamp-2012.htm) que tinha sido alvo de uma publicação da Revista Ciência Hoje (http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2011/282/ciencia-rejeitada).

A pesquisa foi financiada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), por meio do CNPq, pelo Ministério da Educação (MEC), por meio da CAPES, e pela Faculdade de Educação da USP.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Seminário Internacional Brasil-Itália Sobre Ensino de Ciências

Na próxima segunda-feira ocorrerá um seminário reunindo pesquisadores italianos e brasileiros na sede da UNESCO em Veneza, a fim de discutir a possibilidade de projetar instrumentos de acompanhamento dos interesses e atitudes de jovens do início do ensino médio em relação à ciência e tecnologia. Será um grupo pequeno reunindo pesquisadores e funcionários graduados de instituições brasileiras e italianas.

Trata-se de uma avaliação do trabalho desenvolvido pelos dois países em um mesmo projeto internacional, chamado "Relevance of Science Education", coordenado pelo prof. Svein Sjoberg, da Universidade de Oslo, na Noruega.

Na parte da tarde o encontro será aberto a todos os interessados, e ocorrerá na sede do Istituto Veneto di Scienze, Lettere ed Arti, sempre em Veneza.

A partir de um balanço dos resultados obtidos e da metodologia empregada, pretende-se discutir a possibilidade de realizar séries históricas monitorando a evolução do interesse dos jovens pela ciência e tecnologia. Essa estratégia que poderá ser uma importante fonte de dados para implementar políticas públicas que visem estimular a inovação científica e tecnológicas nos dois países.

Espera-se poder aproveitar acordos diplomáticos entre os dois países para estimular a troca de pesquisadores e alunos, não apenas de pós-graduação, como também de graduação e também do ensino médio.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Lazzaro Spallanzani e Serafino Volta

Depois de um longo período de ausência no blog, que passará por reformulações profundas (estamos trabalhando bastante, aguardem notícias em breve!) retomo os posts com as novidades "do momento".

Em uma sessão de mais pesquisas na Itália, antes de participar de dois importantes eventos, um no Instituto Veneto de Ciências, Letras e Artes (www.istitutoveneto.it) e outro no XII Congresso de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (www.pcst2012.org), aproveito para fazer mais pesquisas bibliográficas nas fontes primárias do Settecento Vêneto.

Pesquisando a questão dos fósseis de peixes marinhos encontrados em montanhas que iriam resolver a questão da ocorrência literal do Dilúvio Universal, encontrei este livreto na Biblioteca Municipal de Verona.

É um escrito de 1798, um ano antes da morte de Lazzaro Spallanzani, e traz uma série de críticas a ele e a seu modo de pesquisar e escrever.

Na verdade, trata-se da exploração de resultados de experimentos sobre a polinização realizados por Spallanzani, que Volta coloca em dúvida.

Ele aproveita para criticar toda a obra de Spallanzani, de fio a pavio, em pouco mais de 30 páginas. Na verdade, trata-se talvez do último entrevero entre os dois abades, dado que Spallanzani faleceu em fevereiro de 1799. Para entender a rivalidade entre os dois é necessário conhecer não apenas as questões teóricas que estavam envolvidas, mas também o histórico da expulsão de Volta do Museu de História Natural da Universidade de Pavia, depois denunciar Spallanzani de grave delito, doze anos antes.

Esse episódio foi tratado por Maria Elice Brzezinski Prestes no último congresso da Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (www.abfhib.org). Estou escrevendo sobre esse artigo para o próximo encontro, que vai ocorrer em agosto próximo, em Ribeirão Preto.

A inscrição de trabalhos termina hoje!